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Ouça um bom Conselho

Para administrar, Aidar vem quebrando, aos poucos e com apoio da oposição, o poder de JJ

Por Ricardo Flaitt (Alemão)

***Recado antes de iniciar este texto: Se preferir substitua as palavras abaixo, assistindo ao filme  Queimada, de Pontecorvo que é, de certa forma, uma versão cinematográfica do que está acontecendo no SPFC (…)

Para aqueles que continuam, outra ressalva. Em clube de futebol, em seus bastidores, não se joga futebol, joga-se xadrez. O campo político não é de grama, mas quadriculado, com jogadas diferentes das feitas com as pernas.

A recente disputa entre Aidar e Juvenal Juvêncio escancarou as entranhas políticas do Morumbi. Clube sempre sereno e ponderado em seus bastidores, mas que vivenciou, nos últimos 30 dias, momentos de pequenez – e até mesmo bizarros – por meio de declarações infelizes e desnecessárias de ambas as partes, que só jogaram contra o clube.

Mas, o que está em jogo nessa disputa?

Bom. Sobre a disputa é preciso falar de como se constitui o Conselho do São Paulo, formado por 155 conselheiros vitalícios e 80 que se alternam por meio de eleições. Por isso, no processo eleitoral do São Paulo, primeiro há a escolha dos 80 conselheiros (os atuais com mandato até 2020), que somar-se-ão aos 155 vitalícios e o total de 235 é que decidirão quem será o presidente.

Isso demonstra o fato de que, ao final da eleição do Conselho, Kalil Abdala já sabia que não seria o presidente, mesmo antes do pleito, uma vez que não conseguira ampliar o número de conselheiros.

Depois de eleito, o presidente do clube passa a ser coordenado – digamos assim – também pelos conselheiros. Assim, Aidar precisa da maioria dos 235 conselheiros para colocar em prática os seus projetos.

Ainda que essa discussão esteja bem longe, isolada das arquibancadas, onde o futebol se resume ao placar e às conversas entre os amigos do trabalho diante de uma vitória ou derrota, o Conselho de um clube de futebol é um órgão essencialmente político, funcionando como uma Câmara de Deputados.

A chapa de oposição, capitaneada por Kalil Rocha Abdala, perdeu as eleições. Venceu a de Aidar, antes liderada por Juvenal Juvêncio, que exercia/exerce uma forte influência nas decisões do Tricolor.

Aidar, que trouxe Juvenal para o São Paulo nos idos de 80, não aceitou tamanha influência dos tempos atuais. Uma vez presidente, busca colocar em prática os seus projetos, como a realização da cobertura do Morumbi.

Mas, como dito, todo e qualquer projeto depende da aprovação do Conselho. Depois do entrevero, hábil, experiente e sem a maioria, Aidar começou a dialogar com membros da oposição no sentido de reverter sua minoria no Conselho e conseguir avançar em seus projetos.

Um presidente de clube precisa da maioria do conselho, na mesma ordem que um Presidente da República precisa da maioria do Congresso para aprovar seus projetos. Sem a maioria não se administra, tudo fica amarrado, emperrado nas engrenagens burocráticas dos regimentos internos, embaraçado em cláusulas, artigos e outros recursos jurídicos.

A aproximação de Aidar com membros da oposição é necessária do ponto de vista particular para se administrar o São Paulo. Em contrapartida, a oposição se mostra aberta ao diálogo, desde que não seja apenas massa de manobra para aprovações no Conselho, que exerça o voto, mas também voz nessa nova fase do São Paulo.

Além de cortes diretos, provocando feridas abertas em antigas relações, Aidar também tem de lidar com problemas políticos profundos, uma vez que está mexendo com o corte de antigas regalias, necessárias administrativamente; mas complicadas sob o ângulo desta Bastilha para a maioria do Conselho.

São costuras que Aidar, habilidoso, terá que coser.

A composição com membros da chapa de Kalil é algo quase inevitável, pois, se isto não acontecer, Aidar terá de conviver com um forte espectro de Juvenal nos bastidores, impotente para executar seus planos, os quais (até que me mostrem o contrário) são essenciais para a modernização do São Paulo, que de vanguarda passou a conservador, sendo engolido, paulatinamente por outros clubes brasileiros.

Projetos como a construção de um novo estádio/arena, ampliação da produtividade no CT de Cotia, redução de custos, reformulações nas ações de marketing, contratação de novos jogadores (principalmente para a zaga) dentre outros desafios; independente de chapas, lados, e embates, sem dúvida, são avanços necessários para o São Paulo, na teoria, está acima de qualquer um.

Sei que é romantismo o que vou dizer, mas Juvenal já deu (para o bem ou para o mal) sua contribuição para o São Paulo. Já garantiu um até um busto, que foi votado e aprovado por unanimidade pelos conselheiros.

Mas agora seria a hora de pensar, sobretudo, em algo que está acima de todas as discussões, que é o São Paulo Futebol Clube, deixar Aidar administrar. O mesmo vale caso fosse o Kalil o presidente. Não estou aqui defendendo um ou outro grupo, mas a instituição.

(A única mancada de Aidar seria demitir Muricy – a não ser por questões de saúde -, pois foi quem assumiu o São Paulo, mesmo na zona de rebaixamento. Isso seria imperdoável para a torcida. Tite é bom, mas Muricy é um patrimônio do São Paulo.)

O livro ainda não se cerrou. Ainda virão novos capítulos nesse folhetim publicado nos jornais e parece que Juvenal ainda caminha sussurrando uma canção de Chico Buarque por entre os corredores do Morumbi…

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho

Que eu lhe dou de graça

Inútil dormir que a dor não passa

Espere sentado

Ou você se cansa

Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo

Deixe esse regaço

Brinque com meu fogo

Venha se queimar

Faça como eu digo

Faça como eu faço

Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo

Vim de não sei onde

Devagar é que não se vai longe

Eu semeio o vento

Na minha cidade

Vou pra rua e bebo a tempestade

RICARDO FLAITT (Alemão) é jornalista, estudante incompleto de Filosofia (Unesp), cursa o último ano de História e cronista-torcedor apaixonado pelo São Paulo | E-mail: flaitt.ricardo@gmail.com | Facebook/rflaitt | twitter.com/flaittt

Invasão dos Zumbis

Que time fantástico esse São Paulo F.C, clube esse no qual sou apaixonado e, pretendo estender essa paixão para minha filha.

O tricolor absorveu algum vírus, existe alguma coisa muito misteriosa nos corredores do Morumbi, cade aquele time que assumiu a vice liderança e se consolidou como concorrente ao titulo?

Esse time não mudou, são os mesmos jogadores e se são os mesmos jogadores, o que pode estar acontecendo? É uma invasão ZUMBI!!!!!!

Claro, isso explica muita coisa, como por exemplo um Kaka que esteve muito mal diante de um Fluminense que veio nitidamente pra segurar um empate. As únicas jogadas do Fluminense eram em cima do jovem Auro, não vamos crucifica-lo mas não da! Ele não sabe marcar ainda, ontem foi o mais ZUMBI de todos, seguido de Antonio Carlos, meu DEUS! Desaprendeu? Ou existe algo que o faz melindrar tanto?

Quanto Zumbi em campo ontem no Morumbi, no nosso Morumbi!
Que falta de amor ao clube, que falta de respeito ao salário que recebem, vocês devem produzir mais do que isso meus caros Zumbis.

Edson Silva apesar de dois passes esquisitos, foi o jogador mais consciente na marcação. Nosso setor criativo tava mal.

Ganso acordou um pouco no segundo tempo, kardec procurou jogo, mas não produziu muita coisa.

Foi um jogo pra esquecer, um verdadeiro show de horrores, um episódio tipico de séries de ZUMBIS.

Vamos torcer para alguém encontrar a cura, pois se continuar assim, não vai demorar muito para começarmos a sonhar somente com a Sulamericana.

Apesar de tanta coisa ruim o Pato fez um gol e errou muitos passes, porém, foi o mais lucido dentro de campo.

Até a semana que vem e que já seja com nosso tricolor curado!!!!

rodape Furia

ESSE É O VERDADEIRO SÃO PAULO?

c_tania

Depois de mais uma derrota no sábado, fiquei me perguntando o que pode ter acontecido com o São Paulo na últimas rodadas. Tentei analisar as possíveis mudanças e os acontecimentos recentes.

Alguns dizem que a derrota no clássico pode ter mexido com o time. Não só pelo jogo em si, mas pela maneira “roubada” que foi. Outros dizem que a lesão do Tolói mexeu com a zaga que estava acertadinha. Auro, o lateral direito, vinha deixando um buraco na lateral, como deixa ainda até agora, mas Tolói cobria isso até se machucar. E agora, sem o zagueiro, a lateral direita virou uma avenida aberta…

De qualquer forma, antes da derrota pro time da marginal, nós já tinhamos perdido para o Coritiba fora de casa e com o Tolói falhando demais. Ou seja, não acho que o clássico e a ausência do zagueiro sejam desculpas. Outros dizem que a culpa é da crise política dentro do clube. Pode ser. Não que mexa diretamente com os jogadores, mas sim com Muricy, com a comissão, e aí sim, isso influencia no time….sei lá!

Na verdade, eu acho que estamos olhando a situação pelo lado errado. Não acho que seja o caso de analisar o que aconteceu para o time cair de produção. Acho que, na verdade, o time teve, lá atrás, um lampejo de bom futebol. Uma ilusão, um bom momento, que durou pouco.

Não sei se estou me fazendo entender, mas acho que aquele São Paulo que vimos contra Internacional, Santos, Palmeiras e Cruzeiro (sem falar Sport e Botafogo, que são times mais fracos) foi um período curto e atípico do time. E não uma melhora considerável do TRICOLOR. Me entendem?

O São Paulo continua limitado. Principalmente na parte defensiva. Tolói, que já não é um primor de zagueiro, não tem reserva. Edson Silva, que vinha fazendo bons jogos, eu sei, tá longe de ser o cara que queremos para a defesa. Antônio Carlos, então, nem se fala. E para por aí.

É impossível pensar em título com um sistema defensivo capenga desses. Pode acontecer, e eu espero que a Sul-americana mude essa coluna. Mas acho muito difícil pela falta de confiança e pela falta de um nome de respeito, de um cara que coloque ordem lá atrás.

Para um time que já teve Miranda, André Dias, Breno e até mesmo Lugano, que mesmo não sendo nada técnico, era uma cara que impunha respeito, não podemos nos conformar com o que temos hoje. Não podemos aceitar em ser a segunda pior defesa do Brasileirão, pelas estatísticas.

Infelizmente essa coluna vem só com a constatação. Não há soluções imediatas a se propor agora. Não podemos contratar ninguém, não há saída. O que temos que torcer é para cada um dos jogadores tomarem consciência do que podem fazer pelo São Paulo ainda e do que precisam doar a partir de agora para não jogar o ano pelo ralo abaixo.

E aí, para o ano que vem, a diretoria vai precisar refletir melhor, sentar com a comissão técnica e apostar em grandes nomes ou, pelo menos, em nomes confiáveis para a zaga TRICOLOR. Porque também não adianta brigarmos pela Libertadores agora e não nos prepararmos prá ela ano que vem….

Vamos, São Paulo! Falta pouco, é a hora de mostrar quem é quem….

tania_rodape

Pão ou pães, é questão de opiniães

Toda censura - assim como toda unanimidade - é burra

Por Ricardo Flaitt (Alemão)

O Brasil passou por longos, tenebrosos e quase intermináveis 21 anos de ditadura militar. Período em que, dentre tantos outros descalabros, as pessoas perderam o direito de se expressarem.

O tempo passou, o Brasil teoricamente “redemocratizou-se”, mas até que ponto essa democracia acontece de fato e de direito na sociedade?

De forma velada, subliminar, recôndita, ainda há uma ditadura das opiniões no Brasil. Dentre tantos casos, façamos um recorte para discutir o jornalismo esportivo.

Todo brasileiro acompanha futebol desde quando nasce na barriga da mãe. Essa vazão de opiniões ganhou espaço, forma e conteúdo com a chegada da internet, principalmente por meio das redes sociais e dos blogs. A internet, de fato, democratizou as opiniões.

No entanto, parece que para emitir sua posição sobre um acontecimento esportivo é preciso estar sob um rótulo de uma grande marca, como se o logotipo corporativo distinguisse a “verdade” das meras opiniões de torcedores.

Diante dessa situação, a qual é muito relativa e discutível, fica a pergunta: – Até que ponto as opiniões veiculadas nos meios alternativos não contém boas análises? Do mesmo jeito que há muita coisa descartável publicada na internet, há também muita coisa descartável proferida pelas grandes mídias esportivas. A diferença está no rótulo, na embalagem.

Por isso considero essencial a existência dos blogs de torcedores, proporcionando novos ângulos de análise sobre os lances do futebol. A verdade não pode ser uma propriedade restrita àqueles que estão sob o guarda-chuva dos grandes conglomerados midiáticos.

Em certos momentos, chega a ser visível o incômodo que as participações da massa causam em parte da crônica esportiva. Parece que, de certa forma, incomodam-se por dividir uma verdade absoluta, que de fato não existe na realidade, muito menos quando se trata da realidade do futebol, repleta de lances interpretativos.

Como cronista-torcedor,  sob a liberdade democrática da internet, acompanho e curto muitos blogs e site alternativos, que analisam as partidas de futebol com extrema profundidade, levando muitas informações não veiculadas nos grandes meios, sob diversos ângulos, nem sempre abordados por aqueles que estão sob os rótulos da “verdade.

Penso que um não anula o outro, ao contrário, nessa dialética da vida, são opostos e complementares, compartilhando elementos entre si.

Exemplo positivo desta nova era da informação e da liberdade, destaco o gigante Lance!, que disponibiliza um espaço específico em suas mídias digitais (coordenado por Mauricio Louro) para que os torcedores possam expressar suas opiniões. Prova maior é a existência deste texto.

O que não se pode admitir é que apenas um pequeno grupo seja legitimado como os únicos responsáveis em proferir análises e/ou emitir suas opiniões. Não se pode admitir o que, nas entrelinhas, configura-se como uma ditadura velada, uma certa igrejinha, como se diz nos bastidores do futebol.

O mesmo vale, na crônica esportiva, para aqueles que criticam a participação de ex-jogadores na imprensa. Isso é uma imbecilidade, pois, por mais que um jornalista tenha todos os dados e um olhar apurado sobre o futebol, existem situações que só mesmo um jogador, que vivenciou “a verdade” dos vestiários e do universo dentro de um campo de futebol, sob a pressão da torcida, sabe falar com propriedade. É inegável a contribuição dos ex-jogadores para a crônica esportiva. Mais um momento em que um contribui para o outro, formando uma análise com mais ângulos.

O jornalismo, ainda mais quando se trata de algo tão arraigado na cultura do povo brasileiro, como é o futebol, não pode se arvorar em posicionamentos como se erguendo uma bandeira de impedimento para as vozes das massas.

Só para citar os mais notáveis, sem também considerar que eles eram os detentores da verdade, como disse Guimarães Rosa:“pão ou pães, é questão de opinães”. Ou então, o gênio Neruda, em sua “Ode à Crítica:

Ode à Crítica

Escrevi cinco versos: um verde,
outro era um pão redondo,
o terceiro uma casa se levantando,
o quarto era um anel
o quinto verso era
curto como um relâmpago
e ao escrevê-lo
me deixou na razão sua queimadura.

E bem, os homens, as mulheres,
vieram e tomaram
a simples matéria,
fibra, vento, fulgor, barro, madeira,
e com tão pouca coisa
construíram
paredes, pisos, sonhos.
Numa linha da minha poesia
secaram roupa ao vento.
Comeram as minhas palavras,
guardaram-nas
junto a cabeceira,
viveram com um verso,
com a luz que saiu do meu lado.

Então,
chegou um crítico mudo
e outro cheio de línguas,
e outros, outros chegaram
cegos ou cheios de olhos,
elegantes alguns
com cravo com sapatos vermelhos,
outros estritamente
vestidos de cadáveres,
alguns partidários
do rei e sua elevada monarquia,
outros haviam se
embaraçado na figura
de Marx e esperneavam na sua barba,
outros eram ingleses
simplesmente ingleses,
e entre todos se lançaram
com dentes e facas,
com dicionários e
outras armas negras,
com citações respeitáveis,
se lançaram
para disputar a minha pobre poesia
às pessoas simples
que a amavam:
e dela fizeram funis,
enrolaram-na,
prenderam-na com cem alfinetes,
cobriram-na com pó de esqueleto,
encheram-na de tinta,
nela cuspiram com suave
benignidade de gatos,
destinaram-na a envolver relógios,
protegeram-na e condenaram-na,
juntaram-lhe petróleo,
dedicaram-lhe úmidos tratados,
cozinharam-na com leite,
juntaram pequenas pedrinhas,
foram lhe apagando vogais,
foram lhe matando
sílabas e suspiros,
amassaram-na e fizeram
um pequeno pacote
que destinaram cuidadosamente
aos seus sótãos, aos seus cemitérios,
logo se retiraram um a um
enfurecidos até a loucura.
Porque não fui bastante
popular para eles
ou impregnados
de doce menosprezo
pela minha ordinária falta de trevas,
retiraram-se todos,
e então,
outra vez, junto à minha poesia
voltaram a viver
mulheres e homens,
de novo fizeram fogo,
construíram asas,
comeram pão,
repartiram entre si a luz
e no amor uniram
relâmpago e anel.
E agora, perdoai-me, senhores,
que interrompo este conto
que lhes estou narrando
e vá viver
para sempre
junto a gente simples.

NERUDA. In: Odas Elementares (1954)

RICARDO FLAITT (Alemão) é jornalista, estudante incompleto de Filosofia (Unesp), futuro historiador e cronista-torcedor apaixonado pelo São Paulo | E-mail: flaitt.ricardo@gmail.com | Facebook/rflaitt | twitter.com/flaittt

SPFC 3 x 8 Fluminense: o inferno são os outros

Por Ricardo Flaitt (Alemão)

Ontem, às 21 horas, o São Paulo abriu os portões do Morumbi para enfrentar o Fluminense, em partida válida pelo segundo turno.  Como tema para o protocolo de entrada dos times em campo, o Tricolor tocou nos alto-falantes do Morumbi a música “Hells Bells”, do brilhante AC/DC.

A música da banda australiana era uma forma de recado subliminar aos cariocas, reafirmando a postura do Tricolor na partida que se seguiria, por meio de versos como: “Sou um trovão motorizado, que cai na chuva. Estou chegando como um furacão. Meus relâmpagos clareiam pelos céus. Você é muito jovem, mas vai morrer. Não faço prisioneiros, não poupo vidas. Ninguém vai lutar. Eu tenho meu sino, vou te levar para o inferno. Eu vou te pegar, Satanás vai te pegar… Sinos do inferno!”

PRIMEIRO TEMPO - O jogo começa. Quando todo mundo esperava uma partida de intensa movimentação, considerando o quarteto Tricolor (Ganso, Kaká, Pato e Kardec) e o quarteto Fluminense (Cícero, Conca, Wagner e Fred), o que se viu no primeiro tempo foi uma partida muito disputada no meio-campo, com o time carioca embolando o setor, com cinco jogadores e só um no ataque.

As esparsas e boas jogadas do São Paulo saíram dos pés de Ganso, como aos 17 minutos, em que deu um belo passe para Kaká, que chegou em diagonal em direção ao gol de Cavalieri, mas não pegou bem e não batey para o gol, nem cruzou.

PERIGO DE GOL - A jogada mais incisiva no primeiro tempo foi do Fluminense que, aos 32 minutos, em bola aérea, Fred sob mais que o zagueiro Antônio Carlos, toca de cabeça, colocando Cícero dentro da área, de frente para a meta de Rogério Ceni; no entanto, o árbitro vê falta no primeiro lance (Fred/Antônio Carlos), livrando o Tricolor de um gol quase certeiro. Errou a arbitragem, favorecendo o São Paulo.

Outro ponto a ser destacado no primeiro tempo (e na partida inteira) foi novamente que o adversário explorava muito a ala-direita do São Paulo, com a avenida deixada pelo jovem Auro, que subiu muito ao ataque e recompunha com dificuldade. O garoto é bom, tem futuro, mas neste momento o São Paulo carece de um Paulo Miranda no setor.

A única chance Tricolor no primeiro tempo foi aos 37 minutos, quando Auro viu bem Pato entrando no meio da área, lançou-o com precisão, que tocou de cabeça para Kardec, mas a defesa do Fluminense afastou. No rebote, a bola caiu nos pés de Ganso, abrindo para Auro na ponta-direita, que cruzou novamente para Pato, que chutou para boa defesa de Cavalieri. Foi uma bela jogada, mas um pequeno relâmpago isolado em meio à música do AC//DC Tricolor.

Ambas as partidas, na primeira etapa, foram preponderantemente burocráticas, como se num tribunal. Um jogo com a morosidade de uma audiência.

SEGUNDO TEMPO – Logo aos 7 minutos, o Fluminense perde os seus dois laterais por contusão. No mesmo instante que todos pensavam numa desestabilidade, o time carioca abre o placar em mais uma falha do sistema defensivo do São Paulo.

Antônio Carlos e Auro saem para formar a linha de impedimento, mas Souza não os acompanha. Com isso, a bola é cruzada na área para o arremate perfeito de Fred.

Quando os sinos do inferno começavam a tocar no Morumbi, aos 11 minutos, numa linha de passe digna de ser analisada, o genial Ganso recebe a bola de Denílson , toca com maestria para Kardec na ponta direita, que cruza para Pato que entrava no meio da área para bater também de primeira e empatar a partida. O quarteto ainda faz soar os sinos do São Paulo.

Depois do empate o jogo voltou a se equilibrar, mas, sem dúvida, um equilíbrio diferente do primeiro tempo, com as duas equipes partindo para cima em busca do resultado. Quem foi dormir ao final do primeiro tempo perdeu uma grande partida.

Aos 27 minutos, mais uma falha do sistema defensivo do São Paulo e mais uma vez nas costas de Auro. Rafinha dá um belo passe, abrindo Wagner na esquerda. O bom meia recebe com tranquilidade, espaço, corta para o meio ampliando sua visão da meta e ao mesmo tempo cortando Auro e bate cruzado para o segundo gol carioca. Belo gol, fruto de bela jogada e belo arremate. Golaço.

Aos 32, Milton Cruz muda tira Kardec, que para mim fez uma boa partida, para dar lugar à Luís Fabiano, que não teve tempo para mostrar muita coisa além de reclamar insistentemente com o árbitro.

A outra substituição do São Paulo aconteceu aos 36, quando Cruz, já com os sinos do inferno apontando mais uma derrota, arrisca tirando o volante Souza para a entrada do bom Osvaldo, que entrou e partiu para cima do Flu. Em opinião, eu faria apenas uma substituição: tiraria Kardec e colocaria Osvaldo. Enfim.

O São Paulo abriu. Aos 42, Osvaldo teve grande chance de marcar, mas a defesa do Fluminense cortou, proporcionando o contra-ataque. Cícero foi parado por Denílson. Em falta, cobrada aos 44, perto da grande área, Conca bate com perfeição, no ângulo esquerdo de Rogério Ceni, que não pode fazer nada além de mover os olhos.

3 a 1 justo. Somando-se os placares dos dois turnos entre São Paulo e Fluminense (5 x 2 | 3 x 1), o Tricolor Paulista tomou 8 gols e fez apenas 3. Uma verdadeira trovoada.

DESTAQUES – Uma derrota, por mais paradoxal que possa parecer, não apaga as coisas boas. Ganso jogou demais, é gênio. Correu, marcou, participou mas, sobretudo, deu passes que poucos sabem fazer ainda no futebol brasileiro. É um dos, senão o único, que ainda tem aquele DNA de um Gerson. É absurdo o quanto joga. E que bom que o técnico da Seleção é o Dunga, incapaz de ver o futebol de Kaká e Ganso, favorecendo o São Paulo nessa reta final de Brasileirão.

Outros que jogaram demais foram Denílson e Pato. O volante marcou com eficiência e, aos 35 do segundo tempo, apresentou a marca de 49 passes corretos e apenas 1 errado. Tomou o terceiro amarelo e vai fazer muita falta na partida contra o Grêmio.

Pato, além do gol, marcou, correu, movimentou-se e caiu por todos os lados da defesa carioca. Vem jogando bem também.

O INFERNO SÃO OS OUTROS – Sartre, em sua teoria existencialista, coloca que o desejo dos outros representa uma força que não faz com que os nossos desejos necessariamente se realizem. Cada um tem um projeto diferente neste mundo, que se repele.

Assim, ao som de “Hells Bells”, em que o Tricolor Paulista dizia passar por cima dos cariocas, a força dos outros não permitiu o desejo são-paulino. Garrincha, um Sartre da bola, já dissera isso, no popular, na Copa do Mundo de 58, ao técnico Feola: “Tá legal, seu Feola… mas o senhor já combinou tudo isso com os russos?”.

Com isso, o São Paulo, que poderia ter encurtado a distância em dois pontos, considerando o empate em 0 a 0 entre Sport e Cruzeiro, fica cada vez mais distante do topo do Brasileirão, tendo agora que brigar por uma vaga na Libertadores.

RICARDO FLAITT (Alemão) é jornalista, estudante incompleto de Filosofia (Unesp), futuro historiador e cronista-torcedor apaixonado pelo São Paulo | E-mail: flaitt.ricardo@gmail.com | Facebook/rflaitt | twitter.com/flaittt